sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Vegetarianismo e a questão da vida

Tenho muitos amigos vegetarianos e eu, carnívoro (acho que as receitas do blog já sugerem isto) comecei a questionar a razão delas serem vegetarianas. Encontrei algumas:

1. Motivos de saúde: a digestão da carne lhe faz mal.

2. Gosto pessoal: a pessoa simplesmente não gosta de carne.

3. Razões atléticas: a carne não contribui em nada para o aumento da elasticidade dos músculos.

4. Por razões de consciência: não como animais.

Quanto às três primeiras razões, não discuto, acho extremamente válido. Entretanto, a quarta razão me intriga e fui fazer algumas pesquisas sobre isto.

Vamos a elas. O que é, exatamente, o vegetarianismo? Segundo o site da Sociedade Vegetariana Brasileira,

"Ser vegetariano, do ponto de vista nutricional, significa apenas não se alimentar de carnes de qualquer tipo (vaca, frango, peixe, carneiro, avestruz, escargô, frutos do mar...) e nem de produtos que contenham esses alimentos. O vegetariano não come nada que fuja, esboce reação de fuga ou sofrimento quando está vivo." (http://www.svb.org.br/folhetos/Oqueeservegetariano.htm). Achei esta definição interessante, mas vaga. Vou citar alguns exemplos: ostra é um animal que não foge, não esboça reação de fuga ou sofrimento, logo, posso comer ostra e ser vegetariano? E marisco, pode?

Entretanto, esta não é a questão que mais me inquieta, mas sim, o conceito de vida. Se eu não como carne, para não infligir sofrimento aos animais, por que eu como vegetais que preciso matar para comer? Acaso, a vida animal vale mais que a vida vegetal? Me desculpem quem pensa assim, mas acho isto uma hipocrisia. Se somos tão civilizados a ponto de não precisar matar uma vida animal para comer, por que matamos vida vegetal? Se quiserem, façam uma experiência: peguem um estetoscópio (aquele aparelho que médicos usam para ouvir nosso coração) e coloquem no caule de uma árvore grande. Ouviremos um som de líquido pulsando. Sabem o que é isto? É a seiva (o sangue da árvore) indo das raízes para as folhas. Logo, isto é ou não é um ser vivo que merece nossa piedade e compaixão?

A propósito da discussão sobre o que é vida, recomendo dois artigos, um em português, da Revista eletrônica do Departamento de Química – UFSC (http://www.qmc.ufsc.br/qmcweb/artigos/vida.html) que trata do aspecto químico e biológico da vida e um em inglês do filósofo Carl Zimmer, publicado na Seed Magazine (http://seedmagazine.com/content/article/the_meaning_of_life/).

A propósito, seguem aqui alguns exemplos da crueldade praticada por todos nós, vegetarianos ou não, contra os vegetais:

a) Palmito: sabem aquele palmito saboroso que usamos para fazer nossas saladas? Segue o que diz um texto do Wikipédia (apesar de eu não gostar do site, o texto é bom): "A extração do palmito implica na morte da palmeira, uma vez que seu meristema apical é eliminado. Por isso, mesmo com sua introdução ao cultivo, a extração de palmito na natureza tem colocado em risco as espécies das quais é obtido, sobretudo a espécie Euterpe edulis, a espécie mais procurada. Os palmitos de pupunha e açaí têm sido aplicados como alternativas para diminuir a ameaça de extinção do palmiteiro tradicional." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Palmito). O que isto significa? Significa que, para comer o seu palmito diário, você assassinou um palmiteiro, que levou anos para crescer e, quanto mais macio o palmito é, mais na flor da idade aquela árvore estava. Portanto, comedor de palmito = assassino de palmiteiros.

b) Soja e feijão: usadas como alternativas protéicas à carne. Sabe como a soja e o feijão são colhidos? Vamos lá. Este eu não preciso de referência, fui nascido e criado em Londrina, uma das principais regiões de cultivo de soja no Brasil e o mesmo processo da soja vale para o feijão. A soja é plantada e, ainda viva, é assassinada por uma lâmina super afiada que simplesmente degola a planta, assassinando-a. Muitos podem dizer que o assassinato é cometido no final da vida da planta, um pouco antes dela morrer. Mas, assassinato é assassinato e, da mesma forma que não devemos comer galinha velha, também não devemos comer soja velha.

c) Arroz e trigo: base da nossa alimentação, tem como processo de assassinato o mesmo da soja e do feijão, ou seja, matamos a planta para comê-las.

d) Mandioca (aipim ou macaxeira): a mandioca ou aipim ou macaxeira é colhida arrancando a planta do solo, sem dó nem piedade. Na verdade, comemos a raiz da planta, ou seja, para comermos a raiz, temos que assassinar a planta. E sabem por que umas são mais macias e do que outras? Simples, as mais novas, com mais amido, são mais macias, as velhas, já com menos amido, se tornam mais duras. Resumindo: para comermos mandioca macia, devemos assassinar a planta na flor da idade. Acho isso meio cruel, ela deve sofrer.

e) Milho: idem as outras. O milho precisa também ser assassinado para ser colhido. O problema é como. A máquina que colhe trigo é horrível (fotos neste link: http://www.google.com.br/images?hl=pt-br&q=colheitadeira%20de%20milho&rlz=1B3GGLL_pt-BRBR374BR375&um=1&ie=UTF-8&source=og&sa=N&tab=wi&biw=1280&bih=545) . A máquina tem garras de metal, que parecem furadeiras gigantes. Entram arrastando a planta, arrancando-a do chão e matando-a sem piedade. E sabe aquelas espigas clarinhas e macias? Para comermos aquela espiga é simples, basta matarmos a planta ainda jovem. Não quero comer aquela espiga de grãos amarelo escuro e duro? Simples, não mate a planta velha, deixem a planta viver menos.

e) Cenoura: esta é interessante. Extraí do livro O cozinheiro cientista de Diego Golombek e Pablo Schwarzbaum. Este texto que vou reproduzir está na página 74 e vou transcrever de maneira fiel ao livro, quando ele retrata uma experiência com cenouras:

"Precisamos de duas cenouras, mas temos que escolher bem: que sejam frescas e tenham cabos e folhas inteiros nas pontas. Corta-se todo o verde de uma das cenouras, e guardam-se as duas na geladeira, em sacos plásticos individuais, durante uma semana. E agora a prova de fogo: será preciso comer um pouco de cada uma e descobrir qual delas está melhor... Para evitar tanto suspense: a cenoura sem folhas parece que está melhor. Por quê? Porque... ESTÁ VIVA! A cenoura é parte da raiz da planta. Quando deixamos as folhas, elas continuam usando nutrientes e água da raiz, o que a torna mais insípida e seca." E você ainda vai comer cenoura? Vai comer uma coisa viva? Como você é cruel...

E, para finalizar, a criação de animais está contribuindo para a derrubada de florestas etc. Isto não é um problema apenas da pecuária e sim da agropecuária, ou seja, florestas sendo derrubadas para produzir alimentos. Entretanto, isto é outra história que vou voltar a ela no futuro.
Bem, acho que é mais ou menos isto. Ainda teria as hortaliças, alface, couve etc. que arrancamos o pé inteiro para comer e, quanto mais jovem, mais macias as plantas. Cruel, não?

Da minha parte, acho que todo excesso é ruim. Portanto, se quiserem proteger mesmo a vida, comam apenas frutos caídos do chão (como os mais radicais fazem). Da minha parte, já me considero evoluído na cadeia alimentar para poder comer tanto comida de origem animal, quanto vegetal. É isso aí.

2 comentários:

  1. Então vamos combinar assim.
    Vc irá plantar um vegetal e cuidar por um ano para após este período corta a planta para se alimentar.
    Ou tb outra hipótese, vc tb nesse período cris um animal para após 1 ano ceifar a vida dele para comer em um almoço.
    Vc teria coragem de abater o animal da mesma forma que arrancasse uma árvore?

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  2. Esqueceu da parte fundamental na questão do por que ser vegetariano, animais possuem sistema nervoso assim como nos temos, coisa que as plantas não tem logo elas não sentem dor, não a dor q eu, vc e o porquinho/galinha/boi sentem. Mas achei muito intrigante seu texto porque me lembra de uma coisa fundamental que eu aprendi em três anos de dieta vegetariana, é que quando somos vegetarianos e alguém nos pergunta o por que, não importa de verdade o por que, somente o fato de sermos vegetarianos incomoda, e vc sabe por que? Vou te responder da forma mais simples, não tem discussão que a dieta vegetariana e melhor para o nosso organismo, para o planeta e etc etc, nisso nunca discutiram comigo (caso duvide recomendo o Google), mas o problema é que quando falamos que somos vegetarianos, lembramos ao nosso indagador que estamos fazendo algo pelo planeta ou até por nossos mesmos que ele não está fazendo e surge essa vontade inóspita do ser humano de alguma forma diminuir essa ação, ou torná-la menos nobre para que o fato de que vc não está fazendo nada seja esquecido. Para finalizar eu te respondo que não, não como ostras e também tive a mesma dúvida que vc, quando decidir parar de comer animais, mas elas possuem sistema nervoso sim e sentem dor também. Espero que você mude o seu pensamento e não justifique o fato de não comer carne pelo fato de "da na mesma" que comer vegetais. Passar bem.

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